O Motivo
A decisão de criar o Blog foi premeditada. Na verdade, esse fato surgiu da vontade de vigorar aquilo que já é remoto. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passando este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto. Porque escrever é também esquecer.
Relatos, crônicas, poesias, poemas, momentos factuais, aforismos, pensamentos, reflexões, questionamentos, indagações (não é o mesmo que questionamento!), acontecimentos, acasos e descontinuidades; encontros e reencontros com a vontade e com o desejo, com a lembrança e com a liberdade....Àqueles que se depararem com meu laconismo e peripécia, saibam que o espírito dos meus escritos transforma a forma para casar com o que sou. Como diria Fernando Pessoa: "Viver já não é necessário. O que é necessário é criar."
Relatos, crônicas, poesias, poemas, momentos factuais, aforismos, pensamentos, reflexões, questionamentos, indagações (não é o mesmo que questionamento!), acontecimentos, acasos e descontinuidades; encontros e reencontros com a vontade e com o desejo, com a lembrança e com a liberdade....Àqueles que se depararem com meu laconismo e peripécia, saibam que o espírito dos meus escritos transforma a forma para casar com o que sou. Como diria Fernando Pessoa: "Viver já não é necessário. O que é necessário é criar."
quarta-feira, 30 de abril de 2008
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Despedida
Existem duas dores de amor.
A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva, já que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver a luz no fim do túnel.
A segunda dor é quando conseguimos vislumbrar a dor no fim do túnel.
A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando essa dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, a dor de renovar a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também...
Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não conseguem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida...
Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas pra isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é posível alforriar.
É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a " dor de cotovelo" propriamente dita. É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentimos por ela, aquele amor une nos justifica como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: " Amo, logo existo".
Despedir-se de um amor, é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente...
E só então a gente poderá amar, de novo.
A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva, já que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver a luz no fim do túnel.
A segunda dor é quando conseguimos vislumbrar a dor no fim do túnel.
A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando essa dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, a dor de renovar a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também...
Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não conseguem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida...
Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas pra isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é posível alforriar.
É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a " dor de cotovelo" propriamente dita. É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentimos por ela, aquele amor une nos justifica como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: " Amo, logo existo".
Despedir-se de um amor, é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente...
E só então a gente poderá amar, de novo.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
Único
Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas quando parte, nunca vai só nem nos deixa a sós. Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si mesma.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Dádiva
Dar... somente o que nos pertence é tão pouco...
Ah. O dar de si próprio, a oferta ilimitada, veemente cortesia de sim...Esse sim. Verdadeiro.
Pergunto pergunto. Em um indagar desenfreado...Há tantos que guardam muito. Mas o que será esses pertences senão aquilo que guardais com medo de necessitar amanhã?!!
E amanhã, o que trará o amanhã ao cão prudente que vai enterrando ossos na areia sem marca enquanto segue os peregrinos até à cidade santa?
E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?!
Sim...eu já senti o receio da sede enquanto meu poço estava cheio. Sede insaciável.
Sim...eu já dei o pouco que tinha para conseguir reconhecimento, propiciando ao meu desejo oculto uma dádiva sem valor.
Mas o momento chegou. A tortura, àquela tortura que já estava repleta de conformismo acabou.
No gesto mais singelo, no olhar mais inocente, na alma mais pura...doou completamente o pouco que tinha.
E em um despertar minha alma acordou.
Acreditar na magnificência da vida o mais belo puro ato me presenteou.
Ainda...
Há aqueles que dão com alegria, e essa alegria é a sua recompensa.
E há aqueles que dão com dor e essa dor é o seu batismo.
E há aqueles que dão mais não conhecem a dor ao dar, nem procuram alegria para se sentirem virtuosos.
Dão, tal como a rosa no vale exala seu perfume para o espaço.
E através das mãos o amor fala. E através dos olhos ele sorri para o mundo..!
É bom dar quando solicitado. Mas muito, muitísimo melhor dar só por ter compreendido.
E para os que tem as mãos abertas à busca daquele que vai recebr é uma alegria maior do que proporcionar.
E que podereis conservar?
Tudo o que possuís será um dia de ti tirado.
Por isso realizai agora, agora que a época da dádiva pode ser vossa e não dos vossos herdeiros.
Aquele que é merecedor de suas noites e de seus dias é com certeza merecedor de tudo.
E aquele que mereceu beber do oceano da vida merece encher a taça no vosso rio.
E que deserto maior haverá do que aquele que assenta na coragem e na confiança de receber?
E quem somos para que os homens se desnudem e exponham seu orgulho para que os possamos ver nus e com o orgulho a descoberto?
Eu quisera, mas tanto tanto...me certificar que sou digna de doação e também instrumento de dádiva...
Como eu quisera...!
Mas, na verdade, é a vida que dá a vida.
Enquanto eu, que me considerei doadora, não passei de testemunha.
E os que receberam, simplesmente porque todos recebem, não carregaram o fardo da gratidão.
Por que a opressão sobre quem dá e quem recebe?!
Não, não, não...
O desejo de erguer a quem recebe se exala e se espalha através de mim...esse sim. Terá que ter asas!
Ah. O dar de si próprio, a oferta ilimitada, veemente cortesia de sim...Esse sim. Verdadeiro.
Pergunto pergunto. Em um indagar desenfreado...Há tantos que guardam muito. Mas o que será esses pertences senão aquilo que guardais com medo de necessitar amanhã?!!
E amanhã, o que trará o amanhã ao cão prudente que vai enterrando ossos na areia sem marca enquanto segue os peregrinos até à cidade santa?
E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?!
Sim...eu já senti o receio da sede enquanto meu poço estava cheio. Sede insaciável.
Sim...eu já dei o pouco que tinha para conseguir reconhecimento, propiciando ao meu desejo oculto uma dádiva sem valor.
Mas o momento chegou. A tortura, àquela tortura que já estava repleta de conformismo acabou.
No gesto mais singelo, no olhar mais inocente, na alma mais pura...doou completamente o pouco que tinha.
E em um despertar minha alma acordou.
Acreditar na magnificência da vida o mais belo puro ato me presenteou.
Ainda...
Há aqueles que dão com alegria, e essa alegria é a sua recompensa.
E há aqueles que dão com dor e essa dor é o seu batismo.
E há aqueles que dão mais não conhecem a dor ao dar, nem procuram alegria para se sentirem virtuosos.
Dão, tal como a rosa no vale exala seu perfume para o espaço.
E através das mãos o amor fala. E através dos olhos ele sorri para o mundo..!
É bom dar quando solicitado. Mas muito, muitísimo melhor dar só por ter compreendido.
E para os que tem as mãos abertas à busca daquele que vai recebr é uma alegria maior do que proporcionar.
E que podereis conservar?
Tudo o que possuís será um dia de ti tirado.
Por isso realizai agora, agora que a época da dádiva pode ser vossa e não dos vossos herdeiros.
Aquele que é merecedor de suas noites e de seus dias é com certeza merecedor de tudo.
E aquele que mereceu beber do oceano da vida merece encher a taça no vosso rio.
E que deserto maior haverá do que aquele que assenta na coragem e na confiança de receber?
E quem somos para que os homens se desnudem e exponham seu orgulho para que os possamos ver nus e com o orgulho a descoberto?
Eu quisera, mas tanto tanto...me certificar que sou digna de doação e também instrumento de dádiva...
Como eu quisera...!
Mas, na verdade, é a vida que dá a vida.
Enquanto eu, que me considerei doadora, não passei de testemunha.
E os que receberam, simplesmente porque todos recebem, não carregaram o fardo da gratidão.
Por que a opressão sobre quem dá e quem recebe?!
Não, não, não...
O desejo de erguer a quem recebe se exala e se espalha através de mim...esse sim. Terá que ter asas!
sábado, 19 de abril de 2008
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Como eu quisera...
Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado. (William Shakespeare)
O Lago e Narciso
Quase todo mundo conhece a história original (grega) sobre Narciso: um belo rapaz que, todos os dias, ia contemplar seu rosto num lago. Era tão fascinado por si mesmo que, certa manhã, quando procurava admira-se mais de perto, caiu na água e terminou morrendo afogado. No lugar onde caiu nasceu uma flor, que passamos a chamar de Narciso.O escritor Oscar Wilde, porém, tem uma maneira diferente de terminar esta história. Ele diz, que quando Narciso morreu, vieram as Oréiadas-deusas do Bosque, e viram que a água doce do lago havia se transformado em lágrimas salgadas.
-Por que você chora? - perguntaram as Oréiadas.
-Choro por Narciso.
-Ah, não nos espanta que você chora por Narciso-continuaram elas. - Afinal de contas, apesar de todas nós sempre corrermos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha oportunidade de contemplar de perto sua beleza.
-Mas Narciso era belo? - quis saber o lago.
-Quem melhor do que você poderia saber? - responderam surpresas as Oréiades. - Afinal de contas, era em suas margens que ele se debruçava todos os dias.
O lago ficou por um tempo quieto. Por fim, disse:
-Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que Narciso era belo. Choro por ele porque, todas as vezes em que ele deitava sobre minhas margens, eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza refletida
segunda-feira, 7 de abril de 2008
sábado, 5 de abril de 2008
O Silêncio
Ficar em silêncio não é apenas deixar de falar, mas educar os ouvidos para escutar tudo aquilo que está a nossa volta. Mesmo no meio de um som estrondoso de uma orquestra, o bom maestro consegue reconhecer uma flauta que esteja desafinada; da mesma maneira, nós precisamos treinar nossa audição para que ela seja capaz de ouvir a voz do bem senso no meio do mercado.
"O homem moderno considera o silêncio algo muito aborrecido. Acha difícil ficar quieto - está sempre ansioso para fazer algo, dar um conselho, colocar um trabalho de pé; e termina escravo de sua compulsão para agir".
"O homem moderno considera o silêncio algo muito aborrecido. Acha difícil ficar quieto - está sempre ansioso para fazer algo, dar um conselho, colocar um trabalho de pé; e termina escravo de sua compulsão para agir".
sexta-feira, 4 de abril de 2008
A complicada arte de ver
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sintomas de sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a acozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões ,- é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortando a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de uma catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu com os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa pertubação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: "Rosa de água com escamas de cristal". Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta...Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais difícil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: " A árvore que o sábio vê não é a mesma que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florecia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: " Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita qe nada vêem. " Não é o bastate não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca de experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro alho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em " Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados,. Se o olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas ajustados à nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mais é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa de brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossa mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornando outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar-me para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver. Eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa pertubação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: "Rosa de água com escamas de cristal". Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta...Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais difícil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: " A árvore que o sábio vê não é a mesma que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florecia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: " Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita qe nada vêem. " Não é o bastate não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca de experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro alho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em " Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados,. Se o olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas ajustados à nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mais é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa de brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossa mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornando outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar-me para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver. Eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
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