O Motivo

A decisão de criar o Blog foi premeditada. Na verdade, esse fato surgiu da vontade de vigorar aquilo que já é remoto. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passando este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto. Porque escrever é também esquecer.

Relatos, crônicas, poesias, poemas, momentos factuais, aforismos, pensamentos, reflexões, questionamentos, indagações (não é o mesmo que questionamento!), acontecimentos, acasos e descontinuidades; encontros e reencontros com a vontade e com o desejo, com a lembrança e com a liberdade....Àqueles que se depararem com meu laconismo e peripécia, saibam que o espírito dos meus escritos transforma a forma para casar com o que sou. Como diria Fernando Pessoa: "Viver já não é necessário. O que é necessário é criar."

domingo, 21 de dezembro de 2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O Itinerário

Hoje uma estrela apareceu no céu.
Afastada das demais estrelas.
Sozinha em um ponto único e solitário do Universo se esforçava para emergir toda a sua luminosidade.

Sua aventura é ilimitada. Os perigos também o são.
À toa no Universo, estrela não quer passear em vão.

Suas companheiras permanecem unidas, resplandecentes em luz através da constelação.
Juntas brilham, um brilho tão grandessíssimo que lhes obscurece a visão.

A estrela desgarrada se sentiu humilhada, pois o brilho que exaltava para as demais não era magnificente.

Sozinha, solitária, a estrela foi fazer sua jornada.
Pelos caminhos do Universo, em um momento a terra foi contemplada.

Que exuberância, que beleza. No ponto fixo em que outrora permanecera,
tal contemplação não fora ostentada com destreza.

Mais ao olhar para trás, algo lhe chama a atenção.
Juntas e resplandescentes suas irmãs engrandeciam o objeto de sua contemplação.

Subitamente, a estrela se dá conta, seu orgulho sua ira,
tudo isso consigo trazia ao que entendia como submissão.

Queria dizer a alguém, como quem já lhe falou:
"Nem o que penso, nem bem o que sinto, mas sim, agora o que sou".

Agora, completa de plenitude,
a estrela bem sabe sem saber:

"Sê toda, sê completa, nada teu aumenta ou diminui,
apenas sê no meio da escuridão".

As irmãs nunca abdicaram, entre si, o elo, a união. São sem pensar, sem saber.
Não sabem que brilham altas na escuridão.

- Talvez assim seja certo! Concluí a estrela no clímax de sua indecisão.
É difícil e árduo quando não se tem a constatação.

Mas seu egresso ao itinerário valeu a pena!
Explana a estrela na retidão encontrada.

Agora sabe, sabe bem: "A escuridão foi necessária".
E assim foi, e assim vai...No tocante do seu ser, ela foi libertada!
(Produzido em um dia de chuva)

domingo, 2 de novembro de 2008

"Já que ela não era uma pessoa triste, procurou continuar como se nada tivésse perdido. Ela não sentiu desespero. Também o que é que ela podia fazer? Pois ela era crônica. Tristeza era luxo"
Clarice Lispector

domingo, 26 de outubro de 2008

Feita de constantes Inconstâncias...

As inconstâncias do ser são as coisas constantes que a alma pode desejar...
As constâncias da alma são as coisas mais inconstantes que o ser pode rejeitar...
A alma  e o ser são as inconstâncias mais constantemente incontestáveis que qualquer constatação não consegue constatar!!

sábado, 18 de outubro de 2008

Chuva

Sou aquilo que não sou. O que sou é aquilo que eu não quero ser. O que quero não sou. Entretanto, mesmo não querendo ser o que sou, só serei o que quero ser sendo... mas em um sendo sem saber que quero ser. Sabendo que quero ser, não serei...!!

Hoje chove, dia frio, nostálgico, mas com uma espécie de alegria peculiar. Uma alegria triste de tristeza. Uma tristeza alegre de alegria.
Chuva fina na janela do meu quarto. Lá fora a rua distante.
Aqui dentro, a brisa que entra pela fresta acompanha a música suave...
Mas um dia normal diferenciado pela diferença...
Amo as coisas simples da vida, elas são o último refúgio do complexo!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Hoje é assim!

Últimos dias...dias constituídos de fragmentos de outrora, aqueles em que, subitamente, já sofreram uma tentativa de descarte mas, por uma insistência teimosa e implacável, ousaram, como que em uma baile de driblagem, manter impregnado seus traços. Por isso, somos forçados a aprender que existem "coisas" (no devido momento me é negada qualquer tentativa de caracterizar "coisas" de uma maneira sublime e poetizada, como tenho tentado fazer nos últimos tempos. Às vezes a poesia me foge, me escapa, e, sendo assim, não me resta outra maneira de escrever senão com uma linguagem vulgar-enquadrando "coisas"como vulgar, não que ela não seja, também pode ser- porque assim como a espontaneidade sucumbe, ela também emerge) que simplesmente são irrefutáveis, sem que saibamos ao certo porquê.

Não quero lutar com tais fragmentos, não quero refutá-los, acho que, por hora, estou me sentindo muito cansada para pensar em tais acontecimentos.

Só digo que fragmentos são bem-vindos. E que me digam o que tiverem que me dizer!

domingo, 17 de agosto de 2008

Começando a me reconstituir...!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Sei lá

A manhã...um café...uma conversa...um sorriso...um passeio...uma reflexão...um devaneio...a alegria...um outro café...a noite...a vivência...a vivência....a vivência...
Vendo estrelas...trabalhando com atividades diárias, corriqueiras...
Não conservando o eu...e assim, a espontaneidade frente ao mistério...
E hoje, o mistério estava no mendigo que tocava gaita na praça...frente a um sorriso...
O sorriso estampado no rosto humilde e feliz...
Estranha felicidade...mas os olhos brilhavam...
Por horas...felicidade e tristeza confundem-se...e a lágrima cai.
Por horas, lágrima não é nem felicidade nem tristeza...
Como o riacho...com águas cristalinas...
Lágrima corre ao som das notas de uma gaita...
Na praça, a música.
Alma limpa por uma lágrima!

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Codificando e Decodificando Emoções.

E até então eu apenas existia tu existias nós existíamos...
E dentro do tempo...minha vida passava a tua se adentrava a nossa caminhava...
Desde o reconhecimento...eu olho tu olhas nos olhamos...
Eu caminho tu esperas nos aproximamos...
Eu sorrio tu compreendes...nos amamos.

Tu rompes o claustro das insignificações...
Em um encontro teu mistério pessoal apresenta-se ao meu,
Em um encontro meu mistério desvanece-se no teu reconhecimento.
E o passado vem por redenção...E o futuro adianta-se por consequência..
E a missão do presente é fundir passado e futuro ao circunstancial...
E a circunstância é tudo e nada...
Tudo e nada sucumbem-se em...
E o amor cresce...e cresce...e cresce...
Coroando-nos e sacrificando-nos...
É para nosso crescimento e para nossa poda...

Agora, um Eu e um Tu situam-se, desnudos,
diante do eterno circusntancial....
Entregues...para chorarem na alegria e rirem na tristeza...
perderem-se e encontrarem-se em si
O amor não tira nada senão de si...
Não possui e nem é possuído
Basta-se a si próprio.
Inexplicável....
Incompreensível...
Infindável...
Absolutamente Inestimável.

E então, Tu e Eu, Eu e Tu, Nós... dimensionamos o existir frente às possibilidades
as quais o mundo se apresenta.... E tudo se torna...
E tudo é...tudo apenas é.

domingo, 20 de julho de 2008

Em pouquíssimos dias de Inverno

Deixa a tua dor um pouquinho de lado
esquece dos problemas do cotidiano.
Largue tua mágoa, teu desalento.
Põe um sorriso na tua alegria,
e viva o Inverno com sua florada exuberante.

Às vezes eu queria ser um pipa...
Leve e solta no ar!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Lá no Botequim

Janelas do meu quarto abertas. A rajada de vento que entra freneticamente faz-me despertar da imensurável displicência na qual eu me encontrava. Por hora, parece que o ponto fixo na parede desbotada, horizontalmente à minha cama, "conspira " a meu favor. Assume a sua mais tenra função: Serve como algo inebriante que, repentinamente, sucumbe todos os sentidos conduzindo-me a vivenciar o nada. É incrível como algo tão insignificante, como uma parede branca, tem o poder de segurar as rédeas de meus pensamentos, afim de evitar qualquer dispersão possível para depois acorrentar-me frente à efemeridade. Esta viria resgatar-me de meu próprio claustro. O claustro?! Aquele de ser enquanto não sou nada...continuo olhando para ela. Olho e nada nego. Também nada afirmo.
Subitamente, em um mecanismo reflexo, meu corpo arrepia-se com o estímulo gélido que adentra o ambiente. O ar impetuoso faz desvanecer o estado perplexo de necessária estagnação na qual eu me encontrava. Agora reparo, que de fato, a parede está desbotada. É necessário pintá-la. Olho o relógio. 23h26min. Levanto-me para fechar as janelas. Céu limpo, sem lua. Duas estrelas parecem emergir da escuridão. Fico alguns minutos a contemplar uma fagulha do universo.
As estrelas nuas não fazem o mínimo esforço para esconderem que são filhas da nostalgia. Olho para o canteiro que encontra-se abaixo de minha janela e no jardim...a Rosa.
Acabo por lembrar que perdi a chave do baú de minhas reminiscências.
Tarde demais...

...Final de tarde. Mesma enfraquecida, a luz do sol ilumina a rua larga e movimentada de um dos principais pontos da cidade. Um, dois, três espirros seguidos. Os olhos me ardem, a cabeça dói e o cansaço tanto físico como mental toma formas em proporções cada vez maiores pelo meu corpo. Eis mais um dia normal de inverno. Aparentemente.
Antes de ir para casa, entro em um Botequim para tomar um café junto ao balcão. Enquanto degusto o horrendo café, que provavelmente atingirá direta ou indiretamente a minha gastrite, mantenho a cabeça cabisbaixa com o propósito de recolher nenhum fragmento da vida diária alheia, quanto mais do seu disperso conteúdo humano. Entretanto, eu já devia saber que é imprescindível a vivência visada ao circunstancial, onde é possível encontrar o pitoresco, o irrisório, o surreal.
A náusea me impede de continuar a ingerir o líquido negro. Quando preparo-me para sair daquele ambiente fétido e nefasto detenho-me em uma cena que chama minha atenção. No fundo do botequim, um casal de velhos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de madeira, ao longo da parede embolorada. A compostura da humildade, na contentação dos gestos e palavras deixa-se acentuar pela maneira discreta com que o velho tira dinheiro do bolso. Este aborda o "garçom", inclinando-se para trás na cadeira e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A velha limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do "garçom". Este ouve concentrado o pedido do velho afastando-se para atendê-lo. A mulher suspira olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. Ao meu lado, o atendente encaminha a ordem do freguês. O homem por detrás do balcão retira um pequeno pedaço de bolo, simples, marrom escuro e de forma triangular. A velha em expectativa olha o bolo que acaba de ser deixado à sua frente. Este fica ali, exposto. Carinhosamente a velha afaga os fios brancos de cabelo de seu companheiro que a olha com ternura e retribui o gesto de carinho beijando-lhe as mãos. Pela porta lateral, próxima à mesa onde o casal se encontra entra uma negrinha lá pelos seus 6 ou 7 anos de idade. Roupa encardida e esfarrapada. Se posta diante do casal e fica-lhes a olhar na espera de uma resposta. A velha, em uma atitude complascente, oferece o bolo à menina que espontaneamente o aceita retribuindo com um sorriso. Preparo-me para pagar o café e quando viro-me novamente para o local da cena, deparo-me com uma mesa quase ausente de qualquer fragmento de presença humana. Em cima, a rosa. Olho para os lados a procura do velho da velha e da menina. Nenhum sinal dos três. Saio do botequim compreendendo que a rosa foi a marca deixada pelo transitório e pelo eterno daquele instante.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Sobre a Alegria e a Tristeza

A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada.
E o mesmo poço de onde sai o vosso rio esteve muitas vezes cheio de lágrimas.
E como poderá ser de outra maneira?
Quanto mais fundo a tristeza entrar no vosso ser, maior é a alegria que podereis conter.
A taça que contém o vosso vinho não é a mesma que foi feita no forno do oleiro?
E a lira que vos apanigua o espírito não é da mesma madeira com que foram esculpidas as facas?
Quando estiverdes alegres, olhai bem dentro do vosso coração e descobrireis que só aquele que vos deu tristeza vos dá também alegria.
Quando estiverdes tristes, olhai novamente para dentro do vosso coração e vereis que na verdade estais a chorar por aquilo que foi a vossa alegria.
Alguns de vós dizes, "A alegria é maior que a tristeza" e outros dirão "Não, a tristeza é maior".
Mas eu digo-vos que são inseparáveis.
Juntas vêm, e, quando uma se senta junto de vós lembrai-vos que a outra estais a dormir na vossa cama.
Na verdade, estais suspensos como balanças entre a vossa tristeza e a vossa alegria.
Só quando vos esvaziais ficais em equilíbrio e imóveis.
Quando o guardador de tesouros vos erguer para pesar o ouro e a sua prata, nem a vossa alegria nem a vossa tristeza se deve alterar.
(Khalil Gibran)

sábado, 12 de julho de 2008

Indo pelo Riacho do Ser.

(...) Minha própria consciência seria apenas a mínima amostra de meu ser, e nem a respeito dela eu possuo grandes conhecimentos. Por horas, sinto-me como um naufrágio nadando em busca de terra firme. Então descubro que as águas em que nado são da banheira de um navio, que por sua vez também está à deriva...
Mas o fato de sentir-me tão pequena também tem suas vantagens. O orgulho também diminui e acabo aceitando o inevitável eterno retorno. É a velha história do ritmo natural da vida e da diminuição das barreiras criadas artificialmente. As coisas mudam em aparência, mas acabam voltando sempre para o mesmo ponto de partida. Entretanto, percebendo isso, quero (o querer pelo querer não sei se com ou sem o fazer) dar um passo além...uma coisa não elimina a outra...

...Recomeço a caminhar. Não quero olhar muito para o chão e nem muito para o céu. Não quero ir muito devagar e também não muito rápido. Será que estarei perto de encontrar meu ritmo ideal???!
Minha fisionomia não demonstra grandes emoções. Mas isso não significa que elas não existam. Chego à conclusão de que sou uma mulher aprendendo a ser uma mulher...
Ou mais do que isso, sou uma mulher aprendendo a ser...!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Em um Local Ecumênico

Todos os dias têm dia.
Todos os dias têm horas.
Todas as horas têm rotina.
Toda rotina tem momentos.
Todos os momentos se distraem da rotina.
Toda rotina não permite abdicar-se do momento.
E, de fato, ela não abdica.
Por isso o momento, com sua formidável solicitude e indefinível compreensão, com as mãos, oferece à rotina um paliativo de seu próprio corpo...
De mãos dadas, rotina e momento perdem-se um no outro, presenteando o dia com uma sublime conspiração.

A Conspiração da XV:

Adoro sentar em um dos bancos da XV e ouvir conversas alheias que não me dizem respeito.
Presenciar os velhos flertando as meninas.
As meninas flertando os velhos.
As mulheres flertando as mulheres
Os homens flertando os homens.
E eu flertando nada e tudo...Oh minha linda Curitiba.
O Universo foi flertado de um banco...
Eis mais uma eterna novidade do mundo!


quarta-feira, 2 de julho de 2008

O Mínimo Querer e a Máxima Distância!

Ou você segue o caminho da tristeza, arma-se de medo, de ciúmes e de falsas alegrias, arma-se de angústia, se repete, fecha os olhos, se acomoda, e segue sem direção o rebanho dos que não sabem; obedece regras injustas, não reage, não questiona, não se aprimora, não lê, não busca, não significa.
Não percebe o absurdo em que se mete: vende a própria natureza por duas ou três moedas de aço, troca a inocência pura pela responsabilidade apressada, torna-se respeitável aos olhos da sociedade, cumpre horários, nunca tem tempo, se preocupa com coisas banais...
Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte.
Comerciante das próprias emoções, já não brinca, vive correndo, ama com pressa, produz, - nem se lembra mais da Lua! - e se torna uma pessoa média, mediana, medíocre, pequena, cansada e normal;
Ou você escolhe o caminho da ousadia, compreende, vai mais longe, se aprofunda, respeita o ser humano que existe em você mesmo, resgata a própria vida e o sorriso, rompe de vez com o passado agonizante, procura defender a verdade, a justiça e a poesia, acorda e assopra o fogo da alma que dormia, ultrapassa esses limites que sufocam, cavalga o cavalo negro, cego e alado das paixões gostosas e sublimes, enche o peito de coragem, corações e relâmpagos, acende de novo esse vulcão que é o teu corpo, deixa a própria cabeça plena de agora, de estrelas e vertigem, e parte em busca de Aventura, de Amor e Liberdade!
Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.
É uma simples questão de escolha...

domingo, 29 de junho de 2008

A Presença!

É incrível como um fato trivial nos remete à lembranças de outrora que, por sua insignificância ou magnitude, já deveriam ter sido esquecidas. Por que no final, o que importa mesmo, não é a representatividade que determinado fato teve no passado, mas sim aquilo que ele nos deixou. Porque o passado sempre deixa suas marcas. Exala um perfume que ao mesmo tempo em que é ardente torna-se doce embriagando-nos com um odor sedutor. Tal odor dissipa-se envolvendo-nos em seu manto. Não importa se o odor misturou-se no tempo ou enfraqueceu-se com a mudança das estações. Importa que ele ainda está presente. Insignificâncias ou Magnitudes....pode-se mesmo julgar? Alguns procuram "rasgar" algumas páginas da vida. Não suportaram a dor e o sofrimento. O fato é que tal resignação deixa o livro da vida incompleto. Faltam algumas páginas para a história se concretizar, mesmo que seja para o enredo ser modificado...o vácuo permanece, a história se estagna, vida de processo passa a ser engrenagem. Outros podem dizer..."mas que seja eterno enquanto dure, porque depois já não tem mais importância". Eu digo: "Só é eterno enquanto dura". Porque de fato, não vivemos de eternidades, mas sim de transformações. A transformação não provoca um exaurimento do que um dia foi. Mas sim uma emersão do que será....
Ontem, em uma conversa trivial com duas pessoas, me veio à lembrança um fato: Uma conversa realizada há algum tempo ( 2 anos)...em um momento de desespero e fascinação entremeados.
Qual não foi minha surpresa ao vasculhar, hoje de manhã, minha caixa de e-mails e descobrir que ainda se encontrava lá (o e-mail foi deletado) um pequeno fragmento daquela conversa de outrora, onde, no momento em que escrevia, fiz de mim aquilo que não imaginava?!!
Enquanto lia aquilo que um dia significou "correspondência" fui invadida por uma onda de emoção e de serenidade. Pareceu que tudo foi ontem. Para o frasco das minhas recordações...Eis o perfume:

"Ontem a noite, enquanto me olhava, você abriu uma porta como se fosse um ladrão. Mas ao ir embora não levou nada de mim. Não era um ladrão mas um noivo que me visitava. Cada ser humano vive seu próprio desejo. Faz parte de seu tesouro e, embora seja uma emoção que pode afastar alguém, geralmente trás quem é importante para perto. É uma emoção que minha alma escolheu. É tão intensa que pode contagiar tudo e todos à minha volta(...)
Quando se atira uma pedra em um lago, no lugar onde a pedra cai, aparecem pequenos círculos, que vão se ampliando, se expandindo até atingir alguma coisa. Pode ser um pato que passava por ali e que não tinha nada a ver com a pedra. Parece que "Deus" atirou uma pedra e mexeu com meu universo, fazendo com que toda a vibração se dissipasse conduzindo as ondas de energia até mim. Existe um nome para essa pedra: Amor. Ela pode descrever a beleza de um encontro fulminante, a vontade de estar com quem é especial e importante em nossa vida. Mas não se limita a isso. Enquanto estes desejos estiverem em um estado puro, ficarei apaixonada pela vida, vivendo cada momento com reverência e, consciente, sempre esperando o momento certo para celebrar a próxima bênção.
Acho que me apaixonei por você por uma simples razão: Não esperava nada. Agora eu tenho duas escolhas: ser uma vítima do mundo, enquadrando o amor em uma espécie de escravidão consentida e algo destruidor ou escolher entre correr os meus riscos, como eu te falei ontem em relação ao sofrimento. Seria uma mentira. A liberdade só existe quando o amor está presente. Quem se entrega totalmente, quem se sente livre, ama ao máximo. E quem ama ao máximo, sente-se livre. Eu quero correr os riscos, porque no amor não existe vítimas, cada um é responsável por aquilo que sente. Ninguém pode machucar ninguém e tampouco devemos culpar o outro por isso. Hoje estou convencida de que ninguém perde ninguém, porque ninguém possui ninguém. O amor está em nós mesmos, só que para despertar esse amor precisamos do outro(...)
Em cada um de nós há uma espécie de "relógio". Quando nosso poço está cheio precisamos achar uma maneira de deixá-lo transbordar. Mas não é fácil. Muitas vezes precisamos de "treino" e de "representações" para acertar "nossos relógios". Quando eles marcam a mesma hora o encontro acontece. A relação sexual consiste nisso...o poço estar cheio e o corpo pedir a linguagem da alma(...).
A verdadeira experiência da liberdade: ter a coisa mais importante do mundo sem possuí-la!
Nosso encontro de ontem soou como uma despedida...Sejas feliz...
É o que posso te desejar...Sejas muito Feliz!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Ser ser eu!

Eu, na minha imensurável e genuína timidez, venho aqui ousar dizer que, renego os impotentes e tomados de pavor, que discernem com tal velocidade, que vão toldando a visão clara de "moralidade" e "imoralidade" (existe????), perdendo a faculdade de discernimento, modificando a pauta dos conceitos, e, de tal modo, que aquilo que outrora causava repugnância e repulsa não tarda a ser admitido como inteiramente natural...Já não se escandalizam mais.
Mas o cálice em breve estará cheio até às bordas. Há de sobreviver um medonho despertar. Mesmo agora já se nota, as vezes, por entre essas massas fustigadas pelos isntintos, uma repentina e transida inquietação, inteiramente inconsciente e reflexa. A certeza se apodera por um instante de muitos corações, sem, contudo, ocorrer um despertar, uma noção categórica de sua atuação indigna. Acode então um zelo redobrado para jogar fora ou então abafar tais "fraquezas" ou "derradeiras partículas" de noções antiquadas....blá, blá, blá...sendo assim, EU RENEGO A MIM MESMA...Sim. Muitas vezes...não pelo agir assim, mas pelo não agir. Sim, pelo não agir. Porque eu nego e acredito ao mesmo tempo. Porque sou crente e descrente na alma. Porque eu construo e destruo, porque ao mesmo tempo em que fujo do desconhecido eu corro atrás dele. Valorizo e desvalorizo, mergulho e emirjo, balbucio e afirmo, sou austera e serena, complascente e diligente, mas também indiferente, condizente e dissidente...Sou o que sou. Continuarei sendo. Será que serei?? Não sei...O tempo dirá!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Desse jeito

A boca do povo emprega uma ótima expressão: "Batem palha vazia!" Vazia porque não levantaram do chão, concomitantemente, o grão genuíno que tanto lhes faltava a compreensão. Tal estreiteza de compreensão está disseminada por toda parte. Com teimosia imbecil matracam frases alheias, já que não podem dar nada de seu.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O Tempo

O tempo passa! Os tempos mudam! É o que por toda parte se ouve dizer e, sem que queiramos, irrompe em nossa mente uma imagem: Vemos tempos mutáveis perpassando por nós. Tal imagem se torna um hábito virando a base sólida por onde vai se edificando e se orientando as lucubrações. Não demora muito, contudo, há um esbarramento em obstáculos, fazendo as coisas se contradizerem umas às outras. Já nada se aguenta nem com a melhor boa vontade. Perde-se e deixa-se lacunas que, não obstante todos os esforços, não poderão ser preenchidas nunca mais. Ora, o tempo! Passará deveras? Por que nos deparamos com obstáculos em face desse princípio se quisermos prosseguir em nosso pensar? Muito fácil, pois a idéia que serve de base está errada: é que o tempo permanece estacionado. Nós sim, nós é que caminhamos sedentos ao seu encontro. Investimos pelo tempo adentro, que é eterno, procurando dentro dele uma Verdade. O tempo permanece parado. Continua o mesmo hoje, ontem, durante mil anos. Somente suas volúveis formas é que variam. Mergulhamos no tempo, afim de conhecermos o seu regaço ou o seu inventário. Mergulhamos afim de avolumarmos nosso saber com as coleções que ele encerra. Pois, mesmo depois de tanto tempo, nada se perdeu, tudo ele preservou. Não mudou. Ele é eterno.

terça-feira, 10 de junho de 2008

O Eu Lacônico

Eu não gosto de me queixar...Mas não gosto de viver comigo...
Eu gosto do vento...E gosto da noite e das estrelas...
Eu gosto do mar...E gosto de atirar coisas importantes ao rio...
Eu gosto das crianças com que troco sorrisos no comboio...
Eu gosto da sombra das árvores...E de neve..e de chuva...
Eu gosto de pisar na grama com os pés descalços e sentir o cheiro de terra molhada.
Eu gosto de ter e ler muitos livros...E gosto de bibliotecas...
Eu gosto do cheiro da palavra dos outros.
Eu gosto de olhar as pessoas nos olhos...E gosto dos que choram e dos que riem.
Eu gosto de cerejas, amoras e framboesas... E de pêssegos e uvas.
Eu gosto de capuccinos de chá e muito muito muitíssimo de café...
Eu gosto de leite com chocolate e de torradas.
Eu gosto quando vou ao café beber Ucal morno....
Eu gosto de fazer bolhas de sabão com a palhinha para dentro do copo.
Eu gosto de fazer bonecos com o miolo do pão...E gosto do perfume da minha vó...
Eu gosto quando dizem que eu cheiro bem.
Eu gosto de músicas, de pianos, de violinos e de flautas...Gosto de guitarras.
Eu gosto de Lisboa...E gosto de pastéis de Belém...
Eu gosto de canela...
Eu gosto de pegadas na areia... E gosto de pés descalços.
Eu gosto de tulipas vermelhas...E gosto de escrever.
Eu gosto de ter telas em branco...E gosto de ter a palheta suja de tinda de óleo...
Eu gosto do inverno...E gosto da cor do céu e do melancolismo...
Eu gosto de tirar fotografias às nuvens...E gosto de ver os pássaros a voar...
Eu gosto de abraços...
Eu gosto do silêncio...
Eu gostaria de ir viver em Alentejo e ver muitos pôres-do-sol de mãos dadas...
Eu gostaria de buscar o paradigma perdido...
Eu não gosto de ser inútil...
Eu sei que as pessoas não têm que ter utilidade, e eu não gosto dos outros porque me são úteis....

Gosto porque gosto....Mas eu não gosto de ser inútil...
E como só abro a boca para dizer coisas inúteis e só faço coisas inúteis, o "Da cor do céu " vai entrar em férias.
Porque a cor do céu também é ilimitada...e eu já não sei mais com que cor pintar meus devaneios!!!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Optei por escrever sobre as parafilias. Não vai ter jeito...

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A qualquer...

Estou eu aqui...comigo mesma, tendo que suportar minha insuportável presença. Fazia algum tempo que eu não postava aqui...estava desanimada, cansada. Literalmente. Não que hoje não esteja. Não é isso. Mais ainda faltam 10 minutos para às 23h...terei que passar a noite em claro escrevendo sobre algo que eu não queria escrever(sobre as parafilias), portanto, tive "vontade" de entremear 2 contexos de infelicidade e desânimo(escrever no blog e escrever sobre as ditas cujas parafilias) para ver no que daria. Eu disse que não queria. Não queria?? Eu tenho a opção de optar por querer ou não querer...mas se eu pensar muito sobre isso os conceitos sobre parafilias, masoquismo, sadismo e necrofilia não serão expostos no magnífico papel em branco...e o magnífico trabalho não será entregue...magníficas pessoas serão prejudicadas...Portanto, mesmo não querendo pensar em optar, eu acabei pensando e optei por não optar opção alguma. Agora, escrevendo, um inefável impulso está tentando emergir. Vou deixá-lo, liberá-lo p/ ver no que vai dar...me lembrei!! Hj estive em contado com as parafilias (aparentemente com os conceitos, mas como eu queria que fosse palpável...pelo menos por um minuto). O prazer pelo sofrimento. O amor pelo sofrer...O amor pela sede de concretização da dor..necessidade de dor...essas são as definições mais sucintas que eu poderia expor aqui. Não quero me deter nesse ponto. Semana passada, enquanto esperava o começo de uma aula no corredor do prédio, me deparei com uma conversa entre duas pessoas. Uma delas se queixava, se lamuriava muito, era evidente seu sofrimento( ela denotou uma pincelada do inefável..foi notável), me pareceu que o motivo foi um rompimento amoroso ou algo do gênero...o fato era que aquela alma estava descontente. A outra, devia ser a amiga...(será?!!) era o que me pareceu. Na verdade, foi a suposição que tirei...pois esta se dirigia àquela com a palavra "amiga". Acho que elas se consideravam como tal...tinham uma espécie de laço afetivo. Tinham um vínculo... Aparentemente a cena daquelas duas pessoas foi banal. Sem grande importância. Sem surpresas. Afinal, isso acontece a todo momento, em todo lugar, por todo e qualquer motivo. Pessoas reclamando e outras consolando...etc etc...
Mas eu estava desanimada...precisava me deter em algo. Precisava buscar o cotidiano p/ me distrair ( que ironia)...me foquei naquele diálogo enfadonho. Após as queixas daquela que se lamuriava, a outra respondeu com consolo. Aquele papo de amiga presente, que não quer ver a que sofre sofrer, aquele papo repleto de teorias e conselhos, onde esta que os dá acha que eles são grandiosamente válidos para alguma coisa. Enfim..aquele papo que todo mundo já deve ter presenciado alguma vez na vida quando tentava se desviar de algum tipo de sofrimento intransponível ... a cena foi bonita, emocionante. Não nego. Porém, este fato não impediu minha indignação. Não com alguma das duas garotas, pois elas estavam apenas cumprindo seus papéis... papéis esperados. Mas sim uma indignação com a proibição do sofrer. Até comigo mesma... Em geral, isso se tornou proibido. Sempre quando uma súbita onda de tristeza está para emergir, abafamos-as. É a regra. São as exigências. "Por que sofrer tanto"? "Não fique assim, tudo vai passar"; " Não chore, não QUERO te ver triste assim; "sorria, a vida é bela"... Sim a vida é bela, sim..sabemos que tudo vai passar...mas que importância tem isso naquele momento. Que importância tem as preocupações desenfreadas com um futuro incerto enquanto se sofre?!! Não consigo entender porque proibiram a angústia. Não consigo entender porque tentar adiar o inadiável quando na verdade, isso causa mais sofrimento do que vivenciá-lo... Não consigo entender porque o medo de enfrentar os próprios demônios...Nietzsche falava que as vezes é preciso ter o caos cá dentro para gerar uma estrela...Quintana expunha que a noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão...se não fosse a escuridão, não haveria as estrelas...!!! A amiga que consolava tinha boas intenções... não consigo acreditar que não as tinha. Mas ela foi egoísta. Falou e falou... e pouco ouviu. Não quero aqui fazer uma exaltação demasiada ao masoquismo. Mas sim à liberdade do Ser ser si mesmo quando apenas o quer ser... e nada mais... Não que o sofrimento seja um destino ( também o é...), mas sim, porque certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido que a felicidade...É uma simples questão de escolha!!!!

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Saudade

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Despedida

Existem duas dores de amor.
A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva, já que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver a luz no fim do túnel.
A segunda dor é quando conseguimos vislumbrar a dor no fim do túnel.
A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando essa dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos. A dor de esvaziar o coração, a dor de renovar a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também...
Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não conseguem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida...
Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas pra isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é posível alforriar.
É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a " dor de cotovelo" propriamente dita. É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentimos por ela, aquele amor une nos justifica como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: " Amo, logo existo".
Despedir-se de um amor, é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente...
E só então a gente poderá amar, de novo.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Único

Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas quando parte, nunca vai só nem nos deixa a sós. Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si mesma.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dádiva

Dar... somente o que nos pertence é tão pouco...
Ah. O dar de si próprio, a oferta ilimitada, veemente cortesia de sim...Esse sim. Verdadeiro.
Pergunto pergunto. Em um indagar desenfreado...Há tantos que guardam muito. Mas o que será esses pertences senão aquilo que guardais com medo de necessitar amanhã?!!
E amanhã, o que trará o amanhã ao cão prudente que vai enterrando ossos na areia sem marca enquanto segue os peregrinos até à cidade santa?
E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?!
Sim...eu já senti o receio da sede enquanto meu poço estava cheio. Sede insaciável.
Sim...eu já dei o pouco que tinha para conseguir reconhecimento, propiciando ao meu desejo oculto uma dádiva sem valor.
Mas o momento chegou. A tortura, àquela tortura que já estava repleta de conformismo acabou.
No gesto mais singelo, no olhar mais inocente, na alma mais pura...doou completamente o pouco que tinha.
E em um despertar minha alma acordou.
Acreditar na magnificência da vida o mais belo puro ato me presenteou.
Ainda...
Há aqueles que dão com alegria, e essa alegria é a sua recompensa.
E há aqueles que dão com dor e essa dor é o seu batismo.
E há aqueles que dão mais não conhecem a dor ao dar, nem procuram alegria para se sentirem virtuosos.
Dão, tal como a rosa no vale exala seu perfume para o espaço.
E através das mãos o amor fala. E através dos olhos ele sorri para o mundo..!
É bom dar quando solicitado. Mas muito, muitísimo melhor dar só por ter compreendido.
E para os que tem as mãos abertas à busca daquele que vai recebr é uma alegria maior do que proporcionar.
E que podereis conservar?
Tudo o que possuís será um dia de ti tirado.
Por isso realizai agora, agora que a época da dádiva pode ser vossa e não dos vossos herdeiros.
Aquele que é merecedor de suas noites e de seus dias é com certeza merecedor de tudo.
E aquele que mereceu beber do oceano da vida merece encher a taça no vosso rio.
E que deserto maior haverá do que aquele que assenta na coragem e na confiança de receber?
E quem somos para que os homens se desnudem e exponham seu orgulho para que os possamos ver nus e com o orgulho a descoberto?
Eu quisera, mas tanto tanto...me certificar que sou digna de doação e também instrumento de dádiva...
Como eu quisera...!
Mas, na verdade, é a vida que dá a vida.
Enquanto eu, que me considerei doadora, não passei de testemunha.
E os que receberam, simplesmente porque todos recebem, não carregaram o fardo da gratidão.
Por que a opressão sobre quem dá e quem recebe?!
Não, não, não...
O desejo de erguer a quem recebe se exala e se espalha através de mim...esse sim. Terá que ter asas!


sábado, 19 de abril de 2008

É rápido como uma sombra, curto com um sonho
Breve como um relâmpago na noite fria
Que com melancolia revela tanto o céu quanto a terra
E antes que o homem consiga dizer "Veja!"
Os dentes da noite o devoram.
E assim, depressa, tudo o que é luminoso
Desaparece em meio à perplexidade. (Wiliam Shakespeare)

Um barco, no ancoradouro, está seguro. Mas não é para isso que os barcos são feitos. (William Shakespeare)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Como eu quisera...

Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado. (William Shakespeare)

O Lago e Narciso

Quase todo mundo conhece a história original (grega) sobre Narciso: um belo rapaz que, todos os dias, ia contemplar seu rosto num lago. Era tão fascinado por si mesmo que, certa manhã, quando procurava admira-se mais de perto, caiu na água e terminou morrendo afogado. No lugar onde caiu nasceu uma flor, que passamos a chamar de Narciso.
O escritor Oscar Wilde, porém, tem uma maneira diferente de terminar esta história. Ele diz, que quando Narciso morreu, vieram as Oréiadas-deusas do Bosque, e viram que a água doce do lago havia se transformado em lágrimas salgadas.
-Por que você chora? - perguntaram as Oréiadas.
-Choro por Narciso.
-Ah, não nos espanta que você chora por Narciso-continuaram elas. - Afinal de contas, apesar de todas nós sempre corrermos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha oportunidade de contemplar de perto sua beleza.
-Mas Narciso era belo? - quis saber o lago.
-Quem melhor do que você poderia saber? - responderam surpresas as Oréiades. - Afinal de contas, era em suas margens que ele se debruçava todos os dias.
O lago ficou por um tempo quieto. Por fim, disse:
-Eu choro por Narciso, mas jamais havia percebido que Narciso era belo. Choro por ele porque, todas as vezes em que ele deitava sobre minhas margens, eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza refletida



segunda-feira, 7 de abril de 2008

"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada. " [ Clarice Lispector ]

sábado, 5 de abril de 2008

O Silêncio

Ficar em silêncio não é apenas deixar de falar, mas educar os ouvidos para escutar tudo aquilo que está a nossa volta. Mesmo no meio de um som estrondoso de uma orquestra, o bom maestro consegue reconhecer uma flauta que esteja desafinada; da mesma maneira, nós precisamos treinar nossa audição para que ela seja capaz de ouvir a voz do bem senso no meio do mercado.
"O homem moderno considera o silêncio algo muito aborrecido. Acha difícil ficar quieto - está sempre ansioso para fazer algo, dar um conselho, colocar um trabalho de pé; e termina escravo de sua compulsão para agir".

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A complicada arte de ver

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sintomas de sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a acozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões ,- é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortando a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de uma catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu com os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa pertubação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: "Rosa de água com escamas de cristal". Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta...Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais difícil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: " A árvore que o sábio vê não é a mesma que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florecia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: " Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita qe nada vêem. " Não é o bastate não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca de experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro alho". Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram". Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em " Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa - garrafa, prato, facão - era ele quem fazia. Ele, um humilde operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados,. Se o olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas ajustados à nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mais é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa de brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossa mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornando outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar-me para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".
Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver. Eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...