O Motivo

A decisão de criar o Blog foi premeditada. Na verdade, esse fato surgiu da vontade de vigorar aquilo que já é remoto. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passando este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto. Porque escrever é também esquecer.

Relatos, crônicas, poesias, poemas, momentos factuais, aforismos, pensamentos, reflexões, questionamentos, indagações (não é o mesmo que questionamento!), acontecimentos, acasos e descontinuidades; encontros e reencontros com a vontade e com o desejo, com a lembrança e com a liberdade....Àqueles que se depararem com meu laconismo e peripécia, saibam que o espírito dos meus escritos transforma a forma para casar com o que sou. Como diria Fernando Pessoa: "Viver já não é necessário. O que é necessário é criar."

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A qualquer...

Estou eu aqui...comigo mesma, tendo que suportar minha insuportável presença. Fazia algum tempo que eu não postava aqui...estava desanimada, cansada. Literalmente. Não que hoje não esteja. Não é isso. Mais ainda faltam 10 minutos para às 23h...terei que passar a noite em claro escrevendo sobre algo que eu não queria escrever(sobre as parafilias), portanto, tive "vontade" de entremear 2 contexos de infelicidade e desânimo(escrever no blog e escrever sobre as ditas cujas parafilias) para ver no que daria. Eu disse que não queria. Não queria?? Eu tenho a opção de optar por querer ou não querer...mas se eu pensar muito sobre isso os conceitos sobre parafilias, masoquismo, sadismo e necrofilia não serão expostos no magnífico papel em branco...e o magnífico trabalho não será entregue...magníficas pessoas serão prejudicadas...Portanto, mesmo não querendo pensar em optar, eu acabei pensando e optei por não optar opção alguma. Agora, escrevendo, um inefável impulso está tentando emergir. Vou deixá-lo, liberá-lo p/ ver no que vai dar...me lembrei!! Hj estive em contado com as parafilias (aparentemente com os conceitos, mas como eu queria que fosse palpável...pelo menos por um minuto). O prazer pelo sofrimento. O amor pelo sofrer...O amor pela sede de concretização da dor..necessidade de dor...essas são as definições mais sucintas que eu poderia expor aqui. Não quero me deter nesse ponto. Semana passada, enquanto esperava o começo de uma aula no corredor do prédio, me deparei com uma conversa entre duas pessoas. Uma delas se queixava, se lamuriava muito, era evidente seu sofrimento( ela denotou uma pincelada do inefável..foi notável), me pareceu que o motivo foi um rompimento amoroso ou algo do gênero...o fato era que aquela alma estava descontente. A outra, devia ser a amiga...(será?!!) era o que me pareceu. Na verdade, foi a suposição que tirei...pois esta se dirigia àquela com a palavra "amiga". Acho que elas se consideravam como tal...tinham uma espécie de laço afetivo. Tinham um vínculo... Aparentemente a cena daquelas duas pessoas foi banal. Sem grande importância. Sem surpresas. Afinal, isso acontece a todo momento, em todo lugar, por todo e qualquer motivo. Pessoas reclamando e outras consolando...etc etc...
Mas eu estava desanimada...precisava me deter em algo. Precisava buscar o cotidiano p/ me distrair ( que ironia)...me foquei naquele diálogo enfadonho. Após as queixas daquela que se lamuriava, a outra respondeu com consolo. Aquele papo de amiga presente, que não quer ver a que sofre sofrer, aquele papo repleto de teorias e conselhos, onde esta que os dá acha que eles são grandiosamente válidos para alguma coisa. Enfim..aquele papo que todo mundo já deve ter presenciado alguma vez na vida quando tentava se desviar de algum tipo de sofrimento intransponível ... a cena foi bonita, emocionante. Não nego. Porém, este fato não impediu minha indignação. Não com alguma das duas garotas, pois elas estavam apenas cumprindo seus papéis... papéis esperados. Mas sim uma indignação com a proibição do sofrer. Até comigo mesma... Em geral, isso se tornou proibido. Sempre quando uma súbita onda de tristeza está para emergir, abafamos-as. É a regra. São as exigências. "Por que sofrer tanto"? "Não fique assim, tudo vai passar"; " Não chore, não QUERO te ver triste assim; "sorria, a vida é bela"... Sim a vida é bela, sim..sabemos que tudo vai passar...mas que importância tem isso naquele momento. Que importância tem as preocupações desenfreadas com um futuro incerto enquanto se sofre?!! Não consigo entender porque proibiram a angústia. Não consigo entender porque tentar adiar o inadiável quando na verdade, isso causa mais sofrimento do que vivenciá-lo... Não consigo entender porque o medo de enfrentar os próprios demônios...Nietzsche falava que as vezes é preciso ter o caos cá dentro para gerar uma estrela...Quintana expunha que a noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão...se não fosse a escuridão, não haveria as estrelas...!!! A amiga que consolava tinha boas intenções... não consigo acreditar que não as tinha. Mas ela foi egoísta. Falou e falou... e pouco ouviu. Não quero aqui fazer uma exaltação demasiada ao masoquismo. Mas sim à liberdade do Ser ser si mesmo quando apenas o quer ser... e nada mais... Não que o sofrimento seja um destino ( também o é...), mas sim, porque certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido que a felicidade...É uma simples questão de escolha!!!!

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