O Motivo

A decisão de criar o Blog foi premeditada. Na verdade, esse fato surgiu da vontade de vigorar aquilo que já é remoto. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passando este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto. Porque escrever é também esquecer.

Relatos, crônicas, poesias, poemas, momentos factuais, aforismos, pensamentos, reflexões, questionamentos, indagações (não é o mesmo que questionamento!), acontecimentos, acasos e descontinuidades; encontros e reencontros com a vontade e com o desejo, com a lembrança e com a liberdade....Àqueles que se depararem com meu laconismo e peripécia, saibam que o espírito dos meus escritos transforma a forma para casar com o que sou. Como diria Fernando Pessoa: "Viver já não é necessário. O que é necessário é criar."

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Sei lá

A manhã...um café...uma conversa...um sorriso...um passeio...uma reflexão...um devaneio...a alegria...um outro café...a noite...a vivência...a vivência....a vivência...
Vendo estrelas...trabalhando com atividades diárias, corriqueiras...
Não conservando o eu...e assim, a espontaneidade frente ao mistério...
E hoje, o mistério estava no mendigo que tocava gaita na praça...frente a um sorriso...
O sorriso estampado no rosto humilde e feliz...
Estranha felicidade...mas os olhos brilhavam...
Por horas...felicidade e tristeza confundem-se...e a lágrima cai.
Por horas, lágrima não é nem felicidade nem tristeza...
Como o riacho...com águas cristalinas...
Lágrima corre ao som das notas de uma gaita...
Na praça, a música.
Alma limpa por uma lágrima!

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Codificando e Decodificando Emoções.

E até então eu apenas existia tu existias nós existíamos...
E dentro do tempo...minha vida passava a tua se adentrava a nossa caminhava...
Desde o reconhecimento...eu olho tu olhas nos olhamos...
Eu caminho tu esperas nos aproximamos...
Eu sorrio tu compreendes...nos amamos.

Tu rompes o claustro das insignificações...
Em um encontro teu mistério pessoal apresenta-se ao meu,
Em um encontro meu mistério desvanece-se no teu reconhecimento.
E o passado vem por redenção...E o futuro adianta-se por consequência..
E a missão do presente é fundir passado e futuro ao circunstancial...
E a circunstância é tudo e nada...
Tudo e nada sucumbem-se em...
E o amor cresce...e cresce...e cresce...
Coroando-nos e sacrificando-nos...
É para nosso crescimento e para nossa poda...

Agora, um Eu e um Tu situam-se, desnudos,
diante do eterno circusntancial....
Entregues...para chorarem na alegria e rirem na tristeza...
perderem-se e encontrarem-se em si
O amor não tira nada senão de si...
Não possui e nem é possuído
Basta-se a si próprio.
Inexplicável....
Incompreensível...
Infindável...
Absolutamente Inestimável.

E então, Tu e Eu, Eu e Tu, Nós... dimensionamos o existir frente às possibilidades
as quais o mundo se apresenta.... E tudo se torna...
E tudo é...tudo apenas é.

domingo, 20 de julho de 2008

Em pouquíssimos dias de Inverno

Deixa a tua dor um pouquinho de lado
esquece dos problemas do cotidiano.
Largue tua mágoa, teu desalento.
Põe um sorriso na tua alegria,
e viva o Inverno com sua florada exuberante.

Às vezes eu queria ser um pipa...
Leve e solta no ar!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Lá no Botequim

Janelas do meu quarto abertas. A rajada de vento que entra freneticamente faz-me despertar da imensurável displicência na qual eu me encontrava. Por hora, parece que o ponto fixo na parede desbotada, horizontalmente à minha cama, "conspira " a meu favor. Assume a sua mais tenra função: Serve como algo inebriante que, repentinamente, sucumbe todos os sentidos conduzindo-me a vivenciar o nada. É incrível como algo tão insignificante, como uma parede branca, tem o poder de segurar as rédeas de meus pensamentos, afim de evitar qualquer dispersão possível para depois acorrentar-me frente à efemeridade. Esta viria resgatar-me de meu próprio claustro. O claustro?! Aquele de ser enquanto não sou nada...continuo olhando para ela. Olho e nada nego. Também nada afirmo.
Subitamente, em um mecanismo reflexo, meu corpo arrepia-se com o estímulo gélido que adentra o ambiente. O ar impetuoso faz desvanecer o estado perplexo de necessária estagnação na qual eu me encontrava. Agora reparo, que de fato, a parede está desbotada. É necessário pintá-la. Olho o relógio. 23h26min. Levanto-me para fechar as janelas. Céu limpo, sem lua. Duas estrelas parecem emergir da escuridão. Fico alguns minutos a contemplar uma fagulha do universo.
As estrelas nuas não fazem o mínimo esforço para esconderem que são filhas da nostalgia. Olho para o canteiro que encontra-se abaixo de minha janela e no jardim...a Rosa.
Acabo por lembrar que perdi a chave do baú de minhas reminiscências.
Tarde demais...

...Final de tarde. Mesma enfraquecida, a luz do sol ilumina a rua larga e movimentada de um dos principais pontos da cidade. Um, dois, três espirros seguidos. Os olhos me ardem, a cabeça dói e o cansaço tanto físico como mental toma formas em proporções cada vez maiores pelo meu corpo. Eis mais um dia normal de inverno. Aparentemente.
Antes de ir para casa, entro em um Botequim para tomar um café junto ao balcão. Enquanto degusto o horrendo café, que provavelmente atingirá direta ou indiretamente a minha gastrite, mantenho a cabeça cabisbaixa com o propósito de recolher nenhum fragmento da vida diária alheia, quanto mais do seu disperso conteúdo humano. Entretanto, eu já devia saber que é imprescindível a vivência visada ao circunstancial, onde é possível encontrar o pitoresco, o irrisório, o surreal.
A náusea me impede de continuar a ingerir o líquido negro. Quando preparo-me para sair daquele ambiente fétido e nefasto detenho-me em uma cena que chama minha atenção. No fundo do botequim, um casal de velhos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de madeira, ao longo da parede embolorada. A compostura da humildade, na contentação dos gestos e palavras deixa-se acentuar pela maneira discreta com que o velho tira dinheiro do bolso. Este aborda o "garçom", inclinando-se para trás na cadeira e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A velha limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do "garçom". Este ouve concentrado o pedido do velho afastando-se para atendê-lo. A mulher suspira olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. Ao meu lado, o atendente encaminha a ordem do freguês. O homem por detrás do balcão retira um pequeno pedaço de bolo, simples, marrom escuro e de forma triangular. A velha em expectativa olha o bolo que acaba de ser deixado à sua frente. Este fica ali, exposto. Carinhosamente a velha afaga os fios brancos de cabelo de seu companheiro que a olha com ternura e retribui o gesto de carinho beijando-lhe as mãos. Pela porta lateral, próxima à mesa onde o casal se encontra entra uma negrinha lá pelos seus 6 ou 7 anos de idade. Roupa encardida e esfarrapada. Se posta diante do casal e fica-lhes a olhar na espera de uma resposta. A velha, em uma atitude complascente, oferece o bolo à menina que espontaneamente o aceita retribuindo com um sorriso. Preparo-me para pagar o café e quando viro-me novamente para o local da cena, deparo-me com uma mesa quase ausente de qualquer fragmento de presença humana. Em cima, a rosa. Olho para os lados a procura do velho da velha e da menina. Nenhum sinal dos três. Saio do botequim compreendendo que a rosa foi a marca deixada pelo transitório e pelo eterno daquele instante.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Sobre a Alegria e a Tristeza

A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada.
E o mesmo poço de onde sai o vosso rio esteve muitas vezes cheio de lágrimas.
E como poderá ser de outra maneira?
Quanto mais fundo a tristeza entrar no vosso ser, maior é a alegria que podereis conter.
A taça que contém o vosso vinho não é a mesma que foi feita no forno do oleiro?
E a lira que vos apanigua o espírito não é da mesma madeira com que foram esculpidas as facas?
Quando estiverdes alegres, olhai bem dentro do vosso coração e descobrireis que só aquele que vos deu tristeza vos dá também alegria.
Quando estiverdes tristes, olhai novamente para dentro do vosso coração e vereis que na verdade estais a chorar por aquilo que foi a vossa alegria.
Alguns de vós dizes, "A alegria é maior que a tristeza" e outros dirão "Não, a tristeza é maior".
Mas eu digo-vos que são inseparáveis.
Juntas vêm, e, quando uma se senta junto de vós lembrai-vos que a outra estais a dormir na vossa cama.
Na verdade, estais suspensos como balanças entre a vossa tristeza e a vossa alegria.
Só quando vos esvaziais ficais em equilíbrio e imóveis.
Quando o guardador de tesouros vos erguer para pesar o ouro e a sua prata, nem a vossa alegria nem a vossa tristeza se deve alterar.
(Khalil Gibran)

sábado, 12 de julho de 2008

Indo pelo Riacho do Ser.

(...) Minha própria consciência seria apenas a mínima amostra de meu ser, e nem a respeito dela eu possuo grandes conhecimentos. Por horas, sinto-me como um naufrágio nadando em busca de terra firme. Então descubro que as águas em que nado são da banheira de um navio, que por sua vez também está à deriva...
Mas o fato de sentir-me tão pequena também tem suas vantagens. O orgulho também diminui e acabo aceitando o inevitável eterno retorno. É a velha história do ritmo natural da vida e da diminuição das barreiras criadas artificialmente. As coisas mudam em aparência, mas acabam voltando sempre para o mesmo ponto de partida. Entretanto, percebendo isso, quero (o querer pelo querer não sei se com ou sem o fazer) dar um passo além...uma coisa não elimina a outra...

...Recomeço a caminhar. Não quero olhar muito para o chão e nem muito para o céu. Não quero ir muito devagar e também não muito rápido. Será que estarei perto de encontrar meu ritmo ideal???!
Minha fisionomia não demonstra grandes emoções. Mas isso não significa que elas não existam. Chego à conclusão de que sou uma mulher aprendendo a ser uma mulher...
Ou mais do que isso, sou uma mulher aprendendo a ser...!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Em um Local Ecumênico

Todos os dias têm dia.
Todos os dias têm horas.
Todas as horas têm rotina.
Toda rotina tem momentos.
Todos os momentos se distraem da rotina.
Toda rotina não permite abdicar-se do momento.
E, de fato, ela não abdica.
Por isso o momento, com sua formidável solicitude e indefinível compreensão, com as mãos, oferece à rotina um paliativo de seu próprio corpo...
De mãos dadas, rotina e momento perdem-se um no outro, presenteando o dia com uma sublime conspiração.

A Conspiração da XV:

Adoro sentar em um dos bancos da XV e ouvir conversas alheias que não me dizem respeito.
Presenciar os velhos flertando as meninas.
As meninas flertando os velhos.
As mulheres flertando as mulheres
Os homens flertando os homens.
E eu flertando nada e tudo...Oh minha linda Curitiba.
O Universo foi flertado de um banco...
Eis mais uma eterna novidade do mundo!


quarta-feira, 2 de julho de 2008

O Mínimo Querer e a Máxima Distância!

Ou você segue o caminho da tristeza, arma-se de medo, de ciúmes e de falsas alegrias, arma-se de angústia, se repete, fecha os olhos, se acomoda, e segue sem direção o rebanho dos que não sabem; obedece regras injustas, não reage, não questiona, não se aprimora, não lê, não busca, não significa.
Não percebe o absurdo em que se mete: vende a própria natureza por duas ou três moedas de aço, troca a inocência pura pela responsabilidade apressada, torna-se respeitável aos olhos da sociedade, cumpre horários, nunca tem tempo, se preocupa com coisas banais...
Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte.
Comerciante das próprias emoções, já não brinca, vive correndo, ama com pressa, produz, - nem se lembra mais da Lua! - e se torna uma pessoa média, mediana, medíocre, pequena, cansada e normal;
Ou você escolhe o caminho da ousadia, compreende, vai mais longe, se aprofunda, respeita o ser humano que existe em você mesmo, resgata a própria vida e o sorriso, rompe de vez com o passado agonizante, procura defender a verdade, a justiça e a poesia, acorda e assopra o fogo da alma que dormia, ultrapassa esses limites que sufocam, cavalga o cavalo negro, cego e alado das paixões gostosas e sublimes, enche o peito de coragem, corações e relâmpagos, acende de novo esse vulcão que é o teu corpo, deixa a própria cabeça plena de agora, de estrelas e vertigem, e parte em busca de Aventura, de Amor e Liberdade!
Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.
É uma simples questão de escolha...