Janelas do meu quarto abertas. A rajada de vento que entra freneticamente faz-me despertar da imensurável displicência na qual eu me encontrava. Por hora, parece que o ponto fixo na parede desbotada, horizontalmente à minha cama, "conspira " a meu favor. Assume a sua mais tenra função: Serve como algo inebriante que, repentinamente, sucumbe todos os sentidos conduzindo-me a vivenciar o nada. É incrível como algo tão insignificante, como uma parede branca, tem o poder de segurar as rédeas de meus pensamentos, afim de evitar qualquer dispersão possível para depois acorrentar-me frente à efemeridade. Esta viria resgatar-me de meu próprio claustro. O claustro?! Aquele de ser enquanto não sou nada...continuo olhando para ela. Olho e nada nego. Também nada afirmo.
Subitamente, em um mecanismo reflexo, meu corpo arrepia-se com o estímulo gélido que adentra o ambiente. O ar impetuoso faz desvanecer o estado perplexo de necessária estagnação na qual eu me encontrava. Agora reparo, que de fato, a parede está desbotada. É necessário pintá-la. Olho o relógio. 23h26min. Levanto-me para fechar as janelas. Céu limpo, sem lua. Duas estrelas parecem emergir da escuridão. Fico alguns minutos a contemplar uma fagulha do universo.
As estrelas nuas não fazem o mínimo esforço para esconderem que são filhas da nostalgia. Olho para o canteiro que encontra-se abaixo de minha janela e no jardim...a Rosa.
Acabo por lembrar que perdi a chave do baú de minhas reminiscências.
Tarde demais...
...Final de tarde. Mesma enfraquecida, a luz do sol ilumina a rua larga e movimentada de um dos principais pontos da cidade. Um, dois, três espirros seguidos. Os olhos me ardem, a cabeça dói e o cansaço tanto físico como mental toma formas em proporções cada vez maiores pelo meu corpo. Eis mais um dia normal de inverno. Aparentemente.
Antes de ir para casa, entro em um Botequim para tomar um café junto ao balcão. Enquanto degusto o horrendo café, que provavelmente atingirá direta ou indiretamente a minha gastrite, mantenho a cabeça cabisbaixa com o propósito de recolher nenhum fragmento da vida diária alheia, quanto mais do seu disperso conteúdo humano. Entretanto, eu já devia saber que é imprescindível a vivência visada ao circunstancial, onde é possível encontrar o pitoresco, o irrisório, o surreal.
A náusea me impede de continuar a ingerir o líquido negro. Quando preparo-me para sair daquele ambiente fétido e nefasto detenho-me em uma cena que chama minha atenção. No fundo do botequim, um casal de velhos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de madeira, ao longo da parede embolorada. A compostura da humildade, na contentação dos gestos e palavras deixa-se acentuar pela maneira discreta com que o velho tira dinheiro do bolso. Este aborda o "garçom", inclinando-se para trás na cadeira e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A velha limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do "garçom". Este ouve concentrado o pedido do velho afastando-se para atendê-lo. A mulher suspira olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. Ao meu lado, o atendente encaminha a ordem do freguês. O homem por detrás do balcão retira um pequeno pedaço de bolo, simples, marrom escuro e de forma triangular. A velha em expectativa olha o bolo que acaba de ser deixado à sua frente. Este fica ali, exposto. Carinhosamente a velha afaga os fios brancos de cabelo de seu companheiro que a olha com ternura e retribui o gesto de carinho beijando-lhe as mãos. Pela porta lateral, próxima à mesa onde o casal se encontra entra uma negrinha lá pelos seus 6 ou 7 anos de idade. Roupa encardida e esfarrapada. Se posta diante do casal e fica-lhes a olhar na espera de uma resposta. A velha, em uma atitude complascente, oferece o bolo à menina que espontaneamente o aceita retribuindo com um sorriso. Preparo-me para pagar o café e quando viro-me novamente para o local da cena, deparo-me com uma mesa quase ausente de qualquer fragmento de presença humana. Em cima, a rosa. Olho para os lados a procura do velho da velha e da menina. Nenhum sinal dos três. Saio do botequim compreendendo que a rosa foi a marca deixada pelo transitório e pelo eterno daquele instante.
Subitamente, em um mecanismo reflexo, meu corpo arrepia-se com o estímulo gélido que adentra o ambiente. O ar impetuoso faz desvanecer o estado perplexo de necessária estagnação na qual eu me encontrava. Agora reparo, que de fato, a parede está desbotada. É necessário pintá-la. Olho o relógio. 23h26min. Levanto-me para fechar as janelas. Céu limpo, sem lua. Duas estrelas parecem emergir da escuridão. Fico alguns minutos a contemplar uma fagulha do universo.
As estrelas nuas não fazem o mínimo esforço para esconderem que são filhas da nostalgia. Olho para o canteiro que encontra-se abaixo de minha janela e no jardim...a Rosa.
Acabo por lembrar que perdi a chave do baú de minhas reminiscências.
Tarde demais...
...Final de tarde. Mesma enfraquecida, a luz do sol ilumina a rua larga e movimentada de um dos principais pontos da cidade. Um, dois, três espirros seguidos. Os olhos me ardem, a cabeça dói e o cansaço tanto físico como mental toma formas em proporções cada vez maiores pelo meu corpo. Eis mais um dia normal de inverno. Aparentemente.
Antes de ir para casa, entro em um Botequim para tomar um café junto ao balcão. Enquanto degusto o horrendo café, que provavelmente atingirá direta ou indiretamente a minha gastrite, mantenho a cabeça cabisbaixa com o propósito de recolher nenhum fragmento da vida diária alheia, quanto mais do seu disperso conteúdo humano. Entretanto, eu já devia saber que é imprescindível a vivência visada ao circunstancial, onde é possível encontrar o pitoresco, o irrisório, o surreal.
A náusea me impede de continuar a ingerir o líquido negro. Quando preparo-me para sair daquele ambiente fétido e nefasto detenho-me em uma cena que chama minha atenção. No fundo do botequim, um casal de velhos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de madeira, ao longo da parede embolorada. A compostura da humildade, na contentação dos gestos e palavras deixa-se acentuar pela maneira discreta com que o velho tira dinheiro do bolso. Este aborda o "garçom", inclinando-se para trás na cadeira e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A velha limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do "garçom". Este ouve concentrado o pedido do velho afastando-se para atendê-lo. A mulher suspira olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. Ao meu lado, o atendente encaminha a ordem do freguês. O homem por detrás do balcão retira um pequeno pedaço de bolo, simples, marrom escuro e de forma triangular. A velha em expectativa olha o bolo que acaba de ser deixado à sua frente. Este fica ali, exposto. Carinhosamente a velha afaga os fios brancos de cabelo de seu companheiro que a olha com ternura e retribui o gesto de carinho beijando-lhe as mãos. Pela porta lateral, próxima à mesa onde o casal se encontra entra uma negrinha lá pelos seus 6 ou 7 anos de idade. Roupa encardida e esfarrapada. Se posta diante do casal e fica-lhes a olhar na espera de uma resposta. A velha, em uma atitude complascente, oferece o bolo à menina que espontaneamente o aceita retribuindo com um sorriso. Preparo-me para pagar o café e quando viro-me novamente para o local da cena, deparo-me com uma mesa quase ausente de qualquer fragmento de presença humana. Em cima, a rosa. Olho para os lados a procura do velho da velha e da menina. Nenhum sinal dos três. Saio do botequim compreendendo que a rosa foi a marca deixada pelo transitório e pelo eterno daquele instante.

Um comentário:
Minha filha querida escolheu este titulo pq ela adora tomar umas, se fosse por ela...ela moraria dentro de um boteco hehehehe
Brincaderinha meu anjo... achei que vc transferiu um pouco de sua tristeza ou solidão nesta história, mas não deixa de ser real,é oq vc estava sentido, mas adorei...vc é minha escritora favorita hehehe
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