O Motivo

A decisão de criar o Blog foi premeditada. Na verdade, esse fato surgiu da vontade de vigorar aquilo que já é remoto. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passando este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto. Porque escrever é também esquecer.

Relatos, crônicas, poesias, poemas, momentos factuais, aforismos, pensamentos, reflexões, questionamentos, indagações (não é o mesmo que questionamento!), acontecimentos, acasos e descontinuidades; encontros e reencontros com a vontade e com o desejo, com a lembrança e com a liberdade....Àqueles que se depararem com meu laconismo e peripécia, saibam que o espírito dos meus escritos transforma a forma para casar com o que sou. Como diria Fernando Pessoa: "Viver já não é necessário. O que é necessário é criar."

domingo, 29 de junho de 2008

A Presença!

É incrível como um fato trivial nos remete à lembranças de outrora que, por sua insignificância ou magnitude, já deveriam ter sido esquecidas. Por que no final, o que importa mesmo, não é a representatividade que determinado fato teve no passado, mas sim aquilo que ele nos deixou. Porque o passado sempre deixa suas marcas. Exala um perfume que ao mesmo tempo em que é ardente torna-se doce embriagando-nos com um odor sedutor. Tal odor dissipa-se envolvendo-nos em seu manto. Não importa se o odor misturou-se no tempo ou enfraqueceu-se com a mudança das estações. Importa que ele ainda está presente. Insignificâncias ou Magnitudes....pode-se mesmo julgar? Alguns procuram "rasgar" algumas páginas da vida. Não suportaram a dor e o sofrimento. O fato é que tal resignação deixa o livro da vida incompleto. Faltam algumas páginas para a história se concretizar, mesmo que seja para o enredo ser modificado...o vácuo permanece, a história se estagna, vida de processo passa a ser engrenagem. Outros podem dizer..."mas que seja eterno enquanto dure, porque depois já não tem mais importância". Eu digo: "Só é eterno enquanto dura". Porque de fato, não vivemos de eternidades, mas sim de transformações. A transformação não provoca um exaurimento do que um dia foi. Mas sim uma emersão do que será....
Ontem, em uma conversa trivial com duas pessoas, me veio à lembrança um fato: Uma conversa realizada há algum tempo ( 2 anos)...em um momento de desespero e fascinação entremeados.
Qual não foi minha surpresa ao vasculhar, hoje de manhã, minha caixa de e-mails e descobrir que ainda se encontrava lá (o e-mail foi deletado) um pequeno fragmento daquela conversa de outrora, onde, no momento em que escrevia, fiz de mim aquilo que não imaginava?!!
Enquanto lia aquilo que um dia significou "correspondência" fui invadida por uma onda de emoção e de serenidade. Pareceu que tudo foi ontem. Para o frasco das minhas recordações...Eis o perfume:

"Ontem a noite, enquanto me olhava, você abriu uma porta como se fosse um ladrão. Mas ao ir embora não levou nada de mim. Não era um ladrão mas um noivo que me visitava. Cada ser humano vive seu próprio desejo. Faz parte de seu tesouro e, embora seja uma emoção que pode afastar alguém, geralmente trás quem é importante para perto. É uma emoção que minha alma escolheu. É tão intensa que pode contagiar tudo e todos à minha volta(...)
Quando se atira uma pedra em um lago, no lugar onde a pedra cai, aparecem pequenos círculos, que vão se ampliando, se expandindo até atingir alguma coisa. Pode ser um pato que passava por ali e que não tinha nada a ver com a pedra. Parece que "Deus" atirou uma pedra e mexeu com meu universo, fazendo com que toda a vibração se dissipasse conduzindo as ondas de energia até mim. Existe um nome para essa pedra: Amor. Ela pode descrever a beleza de um encontro fulminante, a vontade de estar com quem é especial e importante em nossa vida. Mas não se limita a isso. Enquanto estes desejos estiverem em um estado puro, ficarei apaixonada pela vida, vivendo cada momento com reverência e, consciente, sempre esperando o momento certo para celebrar a próxima bênção.
Acho que me apaixonei por você por uma simples razão: Não esperava nada. Agora eu tenho duas escolhas: ser uma vítima do mundo, enquadrando o amor em uma espécie de escravidão consentida e algo destruidor ou escolher entre correr os meus riscos, como eu te falei ontem em relação ao sofrimento. Seria uma mentira. A liberdade só existe quando o amor está presente. Quem se entrega totalmente, quem se sente livre, ama ao máximo. E quem ama ao máximo, sente-se livre. Eu quero correr os riscos, porque no amor não existe vítimas, cada um é responsável por aquilo que sente. Ninguém pode machucar ninguém e tampouco devemos culpar o outro por isso. Hoje estou convencida de que ninguém perde ninguém, porque ninguém possui ninguém. O amor está em nós mesmos, só que para despertar esse amor precisamos do outro(...)
Em cada um de nós há uma espécie de "relógio". Quando nosso poço está cheio precisamos achar uma maneira de deixá-lo transbordar. Mas não é fácil. Muitas vezes precisamos de "treino" e de "representações" para acertar "nossos relógios". Quando eles marcam a mesma hora o encontro acontece. A relação sexual consiste nisso...o poço estar cheio e o corpo pedir a linguagem da alma(...).
A verdadeira experiência da liberdade: ter a coisa mais importante do mundo sem possuí-la!
Nosso encontro de ontem soou como uma despedida...Sejas feliz...
É o que posso te desejar...Sejas muito Feliz!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Ser ser eu!

Eu, na minha imensurável e genuína timidez, venho aqui ousar dizer que, renego os impotentes e tomados de pavor, que discernem com tal velocidade, que vão toldando a visão clara de "moralidade" e "imoralidade" (existe????), perdendo a faculdade de discernimento, modificando a pauta dos conceitos, e, de tal modo, que aquilo que outrora causava repugnância e repulsa não tarda a ser admitido como inteiramente natural...Já não se escandalizam mais.
Mas o cálice em breve estará cheio até às bordas. Há de sobreviver um medonho despertar. Mesmo agora já se nota, as vezes, por entre essas massas fustigadas pelos isntintos, uma repentina e transida inquietação, inteiramente inconsciente e reflexa. A certeza se apodera por um instante de muitos corações, sem, contudo, ocorrer um despertar, uma noção categórica de sua atuação indigna. Acode então um zelo redobrado para jogar fora ou então abafar tais "fraquezas" ou "derradeiras partículas" de noções antiquadas....blá, blá, blá...sendo assim, EU RENEGO A MIM MESMA...Sim. Muitas vezes...não pelo agir assim, mas pelo não agir. Sim, pelo não agir. Porque eu nego e acredito ao mesmo tempo. Porque sou crente e descrente na alma. Porque eu construo e destruo, porque ao mesmo tempo em que fujo do desconhecido eu corro atrás dele. Valorizo e desvalorizo, mergulho e emirjo, balbucio e afirmo, sou austera e serena, complascente e diligente, mas também indiferente, condizente e dissidente...Sou o que sou. Continuarei sendo. Será que serei?? Não sei...O tempo dirá!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Desse jeito

A boca do povo emprega uma ótima expressão: "Batem palha vazia!" Vazia porque não levantaram do chão, concomitantemente, o grão genuíno que tanto lhes faltava a compreensão. Tal estreiteza de compreensão está disseminada por toda parte. Com teimosia imbecil matracam frases alheias, já que não podem dar nada de seu.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

O Tempo

O tempo passa! Os tempos mudam! É o que por toda parte se ouve dizer e, sem que queiramos, irrompe em nossa mente uma imagem: Vemos tempos mutáveis perpassando por nós. Tal imagem se torna um hábito virando a base sólida por onde vai se edificando e se orientando as lucubrações. Não demora muito, contudo, há um esbarramento em obstáculos, fazendo as coisas se contradizerem umas às outras. Já nada se aguenta nem com a melhor boa vontade. Perde-se e deixa-se lacunas que, não obstante todos os esforços, não poderão ser preenchidas nunca mais. Ora, o tempo! Passará deveras? Por que nos deparamos com obstáculos em face desse princípio se quisermos prosseguir em nosso pensar? Muito fácil, pois a idéia que serve de base está errada: é que o tempo permanece estacionado. Nós sim, nós é que caminhamos sedentos ao seu encontro. Investimos pelo tempo adentro, que é eterno, procurando dentro dele uma Verdade. O tempo permanece parado. Continua o mesmo hoje, ontem, durante mil anos. Somente suas volúveis formas é que variam. Mergulhamos no tempo, afim de conhecermos o seu regaço ou o seu inventário. Mergulhamos afim de avolumarmos nosso saber com as coleções que ele encerra. Pois, mesmo depois de tanto tempo, nada se perdeu, tudo ele preservou. Não mudou. Ele é eterno.

terça-feira, 10 de junho de 2008

O Eu Lacônico

Eu não gosto de me queixar...Mas não gosto de viver comigo...
Eu gosto do vento...E gosto da noite e das estrelas...
Eu gosto do mar...E gosto de atirar coisas importantes ao rio...
Eu gosto das crianças com que troco sorrisos no comboio...
Eu gosto da sombra das árvores...E de neve..e de chuva...
Eu gosto de pisar na grama com os pés descalços e sentir o cheiro de terra molhada.
Eu gosto de ter e ler muitos livros...E gosto de bibliotecas...
Eu gosto do cheiro da palavra dos outros.
Eu gosto de olhar as pessoas nos olhos...E gosto dos que choram e dos que riem.
Eu gosto de cerejas, amoras e framboesas... E de pêssegos e uvas.
Eu gosto de capuccinos de chá e muito muito muitíssimo de café...
Eu gosto de leite com chocolate e de torradas.
Eu gosto quando vou ao café beber Ucal morno....
Eu gosto de fazer bolhas de sabão com a palhinha para dentro do copo.
Eu gosto de fazer bonecos com o miolo do pão...E gosto do perfume da minha vó...
Eu gosto quando dizem que eu cheiro bem.
Eu gosto de músicas, de pianos, de violinos e de flautas...Gosto de guitarras.
Eu gosto de Lisboa...E gosto de pastéis de Belém...
Eu gosto de canela...
Eu gosto de pegadas na areia... E gosto de pés descalços.
Eu gosto de tulipas vermelhas...E gosto de escrever.
Eu gosto de ter telas em branco...E gosto de ter a palheta suja de tinda de óleo...
Eu gosto do inverno...E gosto da cor do céu e do melancolismo...
Eu gosto de tirar fotografias às nuvens...E gosto de ver os pássaros a voar...
Eu gosto de abraços...
Eu gosto do silêncio...
Eu gostaria de ir viver em Alentejo e ver muitos pôres-do-sol de mãos dadas...
Eu gostaria de buscar o paradigma perdido...
Eu não gosto de ser inútil...
Eu sei que as pessoas não têm que ter utilidade, e eu não gosto dos outros porque me são úteis....

Gosto porque gosto....Mas eu não gosto de ser inútil...
E como só abro a boca para dizer coisas inúteis e só faço coisas inúteis, o "Da cor do céu " vai entrar em férias.
Porque a cor do céu também é ilimitada...e eu já não sei mais com que cor pintar meus devaneios!!!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Optei por escrever sobre as parafilias. Não vai ter jeito...

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A qualquer...

Estou eu aqui...comigo mesma, tendo que suportar minha insuportável presença. Fazia algum tempo que eu não postava aqui...estava desanimada, cansada. Literalmente. Não que hoje não esteja. Não é isso. Mais ainda faltam 10 minutos para às 23h...terei que passar a noite em claro escrevendo sobre algo que eu não queria escrever(sobre as parafilias), portanto, tive "vontade" de entremear 2 contexos de infelicidade e desânimo(escrever no blog e escrever sobre as ditas cujas parafilias) para ver no que daria. Eu disse que não queria. Não queria?? Eu tenho a opção de optar por querer ou não querer...mas se eu pensar muito sobre isso os conceitos sobre parafilias, masoquismo, sadismo e necrofilia não serão expostos no magnífico papel em branco...e o magnífico trabalho não será entregue...magníficas pessoas serão prejudicadas...Portanto, mesmo não querendo pensar em optar, eu acabei pensando e optei por não optar opção alguma. Agora, escrevendo, um inefável impulso está tentando emergir. Vou deixá-lo, liberá-lo p/ ver no que vai dar...me lembrei!! Hj estive em contado com as parafilias (aparentemente com os conceitos, mas como eu queria que fosse palpável...pelo menos por um minuto). O prazer pelo sofrimento. O amor pelo sofrer...O amor pela sede de concretização da dor..necessidade de dor...essas são as definições mais sucintas que eu poderia expor aqui. Não quero me deter nesse ponto. Semana passada, enquanto esperava o começo de uma aula no corredor do prédio, me deparei com uma conversa entre duas pessoas. Uma delas se queixava, se lamuriava muito, era evidente seu sofrimento( ela denotou uma pincelada do inefável..foi notável), me pareceu que o motivo foi um rompimento amoroso ou algo do gênero...o fato era que aquela alma estava descontente. A outra, devia ser a amiga...(será?!!) era o que me pareceu. Na verdade, foi a suposição que tirei...pois esta se dirigia àquela com a palavra "amiga". Acho que elas se consideravam como tal...tinham uma espécie de laço afetivo. Tinham um vínculo... Aparentemente a cena daquelas duas pessoas foi banal. Sem grande importância. Sem surpresas. Afinal, isso acontece a todo momento, em todo lugar, por todo e qualquer motivo. Pessoas reclamando e outras consolando...etc etc...
Mas eu estava desanimada...precisava me deter em algo. Precisava buscar o cotidiano p/ me distrair ( que ironia)...me foquei naquele diálogo enfadonho. Após as queixas daquela que se lamuriava, a outra respondeu com consolo. Aquele papo de amiga presente, que não quer ver a que sofre sofrer, aquele papo repleto de teorias e conselhos, onde esta que os dá acha que eles são grandiosamente válidos para alguma coisa. Enfim..aquele papo que todo mundo já deve ter presenciado alguma vez na vida quando tentava se desviar de algum tipo de sofrimento intransponível ... a cena foi bonita, emocionante. Não nego. Porém, este fato não impediu minha indignação. Não com alguma das duas garotas, pois elas estavam apenas cumprindo seus papéis... papéis esperados. Mas sim uma indignação com a proibição do sofrer. Até comigo mesma... Em geral, isso se tornou proibido. Sempre quando uma súbita onda de tristeza está para emergir, abafamos-as. É a regra. São as exigências. "Por que sofrer tanto"? "Não fique assim, tudo vai passar"; " Não chore, não QUERO te ver triste assim; "sorria, a vida é bela"... Sim a vida é bela, sim..sabemos que tudo vai passar...mas que importância tem isso naquele momento. Que importância tem as preocupações desenfreadas com um futuro incerto enquanto se sofre?!! Não consigo entender porque proibiram a angústia. Não consigo entender porque tentar adiar o inadiável quando na verdade, isso causa mais sofrimento do que vivenciá-lo... Não consigo entender porque o medo de enfrentar os próprios demônios...Nietzsche falava que as vezes é preciso ter o caos cá dentro para gerar uma estrela...Quintana expunha que a noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão...se não fosse a escuridão, não haveria as estrelas...!!! A amiga que consolava tinha boas intenções... não consigo acreditar que não as tinha. Mas ela foi egoísta. Falou e falou... e pouco ouviu. Não quero aqui fazer uma exaltação demasiada ao masoquismo. Mas sim à liberdade do Ser ser si mesmo quando apenas o quer ser... e nada mais... Não que o sofrimento seja um destino ( também o é...), mas sim, porque certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido que a felicidade...É uma simples questão de escolha!!!!